Perito Moreno equilibrada

Sobre a situação das geleiras na América do Sul e o caso específico de Perito Moreno (que não apresenta redução frente ao aquecimento global) eu conversei por e-mail com o especialista em geleiras professor Andrés Rivera, investigador do Centro de Estudos Científicos (Centro de Estudios Científicos) do Chile. Confira:

Miradas- De acordo com vários estudos, a geleira Perito Moreno apresenta um equilíbrio estável, enquanto a maioria das geleiras no mundo apresentam redução em seu tamanho, como é o caso de duas geleiras muito próximas à Perito Moreno: Upsala e Viedma. Estas geleiras correm sério risco de desaparecer? Qual seria a razão para tal fenômeno?

Andrés Rivera- A característica predominante das geleiras da Patagônia é o chamado “calving” ou o desprendimento da frente de gelo em lagos e fiordes submetidos à força das marés ou mesmo em lagos de água doce, cujas propriedades físicas, batimétricas [relativo à profundidade de oceanos, rios e lagos] e sedimentológicas podem afetar  significantemente a dinâmica da geleira. As geleiras de “calving” tem-se mostrado muito sensíveis a mudanças no clima, indicando respostas amplificadas frente a moderadas variações de temperatura ou precipitação. O caso da geleira Upsala (Argentina) é um exemplo de destaque. No entanto são numerosas as geleiras do Campo de Gelo Sul (Jorge Montt, Greve, Dickson, O´Higgins… estas últimas em território chileno) que têm experimentado forte diminuição e retrocessos nas últimas décadas. A Viedma tem mostrado um comportamento muito mais estável. Devo indicar que nenhuma dessas geleiras “corre sério risco de desaparecer”; isso não é verdadeiro, claro e não está sustentado em dados reais.

Miradas- Mas na América do Sul algumas geleiras estão desaparecendo, como a Chacaltaya, na Bolívia, e O´Higgins, no Chile. O que se pode esperar, no futuro, das geleiras na região?

A. R- Geleiras que mostram indícios de desaparecimento próximo (em uma ou duas décadas) são muito localizadas e próprias de regiões onde as superfícies e o número de placas de gelo ocorrem em pequena escala se comparados ao enorme reservatório existente na Patagônia chilena e argentina. Esse é o caso dos Andes tropicais, onde se tem prognosticado a extinção de algumas geleiras pequenas como a Chacaltaya e, consequentemente, em médio prazo, estima-se que isso possa produzir uma redução no escoamento de águas originárias dos vales andinos. Não é essa a situação da geleira O´Higgins no Chile, que, apesar de mostrar evidentes sinais de instabilidade, se encontra numa região climática com altas somas de precipitação de neve e de transferência de massa desde as zonas de acumulação [áreas de acumulação são os locais mais altos das geleiras onde ocorre ganho de massa, já que a acumulação é o processo através do qual a neve, o gelo e a água são adicionados à geleira]. Em todo caso, as geleiras não apenas respondem às mudanças climáticas induzidas pelo homem, como, principalmente, respondem à variação natual do clima.

Miradas- De acordo com um relatório do World Glacier Monitoring Service (WGMS) , as geleiras na Patagônia são de grande importância na garantia de água potável para a população, além de suprir a demanda de água na agricultura e indústria. A população dessa região deveria se preocupar com a redução das geleiras?

A. R- Os recursos hídricos provenientes das geleiras são importantes em várias regiões do Chile e no resto dos Andes, não apenas na Patagônia. Inclusive, a dependência deste recurso é mais crítica em áreas de maior densidade demográfica e diversidade econômica do que na região patagônica, como, por exemplo, na região central do Chile. A preocupação com a disponibilidade futura de água doce, portanto, deve ser uma preocupação internacional e socialmente transversal. Um exemplo recente, da esfera político-institucional, de avaliação dos impactos na disponibilidade de recursos hídricos e sua possível mitigação é a elaboração da Estratégia Nacional de Geleiras do Governo do Chile e o trâmite da Lei de Proteção de Geleiras no Congresso Nacional do país. Em todo caso, insisto, as geleiras não só respondem às mudanças induzidas pelo homem, como também, e principalmente, respondem à variação natural do clima à médio e longo prazo.

Miradas- Uma curiosidade: Por que a geleira Perito Moreno é azul, e não branca?

A. R- A densidade do gelo de geleira é de aproximadamente 900kg/m³. Com esta densidade e quando na superfície não existem materiais desagregados tais como firn [estágio intermediário entre neve e gelo] ou neve granular, a geleira tem cor azul. Algo parecido ocorre também com o verde. Devem ser geleiras de dimensões consideráveis para observar essa tonalidade azulada. O branco é próprio da neve (de menor densidade e diferente cristalografia).

Miradas- Segundo um relatório do Greenpeace, as geleiras do Campo de Gelo Patagônico Sul  (Perito Moreno, Upsala e Viedma) apresentam grande redução em seu tamanho. Existem informações recentes quanto ao tamanho das três principais geleiras desta região na Argentina? E quanto à redução em seus tamanhos?

A. R- Um estudo recente indica uma superfície aproximada para essas geleiras de 255 km², 800 km² e 984 km², respectivamente. Nas três, assim como em praticamente a totalidade das geleiras do Campo de Gelo Patagônico Sul, se detectou uma redução das superfícies que apresentavam em meados da década de oitenta. Essa tendência é levada ao extremo precisamente na Geleira Upsala, na Argentina, com quase 50 km² de perda de superfície, seguida pela geleira Jorge Montt, no Chile, com uma perda de 37km² no mesmo período.

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  1. Perito Moreno | Miradas

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