Ameaçados?

Mudanças climáticas que desestabilizam o equilíbrio dos oceanos, derramamento de petróleo e pesca comercial juntam-se aos predadores naturais para potencializar o número de mortes entre os pinguins.

Sobre os crescentes riscos que sofrem esses carismáticos animais, conversei com o especialista do Centro Nacional Patagônico (Conicet) e presidente da Global Penguin Society (GPS), Pablo Garcia Borboroglu. Confira:

Miradas- Segundo dados da organização não-governamental WWF, se a temperatura da terra subir 2ºC, a população de pinguins da Antártica pode sofrer sérios impactos. O aquecimento global é um perigo real para os pinguins?

Pablo Garcia Borboroglu- Existem 3 ameaças principais para os pinguins que são as 3 principais ameaças do oceano: mudanças climáticas ou o que chamamos de aumento da variação climática. Uma outra é o manejo desacertado da atividade pesqueira. E outra é a contaminação do mar. Há muitas maneiras através das quais as mudanças climáticas afetam os pinguins. Primeiro temos de separá-los em dois tipos: os pinguins antárticos, que vivem na Antártica, e os pinguins de climas temperados, que vivem na África do Sul, na América do Sul e na Austrália. Na Antártica o que está acontecendo é que as mudanças climáticas estão afetando e mudando o padrão de formação e derretimento de gelo. E isso o que faz? Gera uma modificação na quantidade e qualidade de lugares para [os pinguins] se alimentarem e se reproduzir. Ou seja, o derretimento faz com que haja menor disponibilidade de comida e menor disponibilidade de ambientes para a reprodução. Há pinguins que se só reproduzem em lugares com gelo. E com outros pinguins ocorre o contrário. Nesse momento, com o gelo retrocendendo, está havendo mais alta para esses pinguins que não gostam de gelo, como os pinguins de Gentoo, e há baixa para os pinguins que são mais resistentes e convivem bem com o gelo, por exemplo, o pinguim Adélia. Frente a essas mudanças climáticas, percebemos que alguns pinguins são vencedores e outros que são perdedores. Mas todos, por igual, são afetados negativamente no que se refere à comida. Porque uma mudança na temperatura não afeta somente o gelo, mas afeta a temperatura dos oceanos e também muda a superfície do mar e as correntes marinhas. O que faz com que a comida não esteja disponível no lugar ou no momento em que deveria estar. Os pinguins, bem como outras aves marinhas, dependem de uma fonte de alimento que está no mar e eles não sabem exatamente onde ela vai estar. As mudanças climáticas, portanto, modificam uma parte chave nos pinguins. Nós observamos em muitas colônias que o êxito reprodutivo é muito inferior e que as temporadas reprodutivas não são boas justamente pela falta de alimento. As mudanças climáticas trazem outros efeitos. Nos pinguins de climas temperados, por exmeplo, as mudanças no clima aumentam a freqüência e intensidade de fenômenos climáticos que antes eram normais. Por exemplo: há chuvas, mas elas são muito mais intensas. E uma chuva muito intensa num momento em que há filhotes pode causar muita mortalidade, e isto estamos observando aqui [na Patagônia] e em outros locais.

Miradas- Como, então, eles podem ser “vencedores” frente às mudanças climáticas?

Pablo Garcia Borboroglu- Por exempo, o pinguim de Gentoo é um tipo que nidifica em locais onde não há gelo nem neve, ou seja, para construir o ninho necessitam de um ambiente onde não haja gelo. Então, na Antártica, com o derretimento do gelo, há muito mais espaço disponível para esses pinguins. Estão ocupando ambientes que antes estavam tampados por gelo e agora não. Por isso têm muito mais habitats. Então aí é que são beneficiados por essas mudanças. Dentre as 17 espécies que nós consideramos, 12 estão ameaçadas ou vulneráveis. E esse [Gentoo] é um caso único em que os pinguins são beneficiados pelas mudanças climáticas.

Miradas- Pode-se dizer que os pinguins, de uma maneira geral, estão em risco de desaparecer?

Pablo Garcia Borboroglu- De maneira geral, os pinguins são um grupo de espécies de aves marinhas que possuem características que os deixam bastante vulneráveis a essas mudanças e alterações que nós temos feito ao ambiente marinho. Eles rapidamente te indicam o que está passando no oceano. Observe que quando há um derramamento de petróleo, ficamos sabendo pelos pinguins, que são os primeiros a aparecer na costa. Se não há comida, na colônia, os filhotes morrem porque algo está acontecendo lá fora. O mesmo observamos nas mudanças climáticas. Os pinguins são um grupo de espécies que, rapidamente, refletem o que ocorre no mundo. E essa característica os faz particularmente muito sensíveis a essas mudanças e é por isso que tantas espécies de pinguins estão ameaçadas ou vulneráveis.

Miradas- A organização Bird Life diz que o derramamento de petróleo no mar e a pesca são responsáveis pela redução das populações de pinguins de magalhães. Essas são as maiores ameaças que sofrem?

Pablo Garcia Borboroglu- Na verdade, depende muito. Varia com o tempo. Por exemplo, na década de 80, se não me engano, 30 mil pinguins de magalhães morriam todo ano por petróleo. Depois, por sorte, foi criada uma lei que obrigava os navios petroleiros a navegar mais distantes da costa. E desde esse momento, que foi em 97, o problema aqui na Patagônia se reduziu muito. Mas hoje estamos vendo que o problema é quando os pinguins de magalhães migram. Pois quando migram, atravessam zonas na Argentina, no Uruguai e Brasil onde há muito desenvolvimento petroleiro, e aí se contaminam por petróleo. Num trabalho em que nós tratamos de ver o tamanho do problema e onde ele estava ocorrendo, descobrimos que nesses três países existem 25 centros de reabilitação que, todos os anos de 30 anos para cá, recebem pinguins contaminados por petróleo. Ou seja, é um problema de escala espacial muito grande e também de muito tempo. A outra questão é a pesca… Não há muitos dados e nem muita certeza quanto à pesca. Não se sabe quem é o culpado, na verdade. Eu trabalho no que é o Centro-Norte da Patagônia e estamos vendo que as colônias do Centro-Sul estão se reduzindo de maneira alarmante. Inclusive Punta Tombo, que é a maior colônia da espécie em todo o mundo. Ao contrário, as colônias que estão no Norte da Patagônia estão crescendo de maneira muito chamativa. Nós colocamos, este ano e no passado, transmissores para ver onde os pinguins estão comendo. Pois percebemos que, quando se afastam muito para comer, ao voltar, os filhotes estão mortos e, ao longo dos anos, essas colônias vão se reduzindo. Então o que percebemos nas colônias do Sul é que os pinguins estão se afastando muito para comer. E no Norte eles comem muito perto das colônias. Então, não temos dados, mas levantamos a hipótese de que algo está acontecendo no oceano e de que a comida também variou sua distribuição ao longo dos anos. Antes, as colônias como Punta Tombo e outras colônias grandes contavam com comida próxima. E, agora, a comida já não está tão perto. Ou seja, essas mudanças fazem com que os pinguins respondam rapidamente e por isso vimos quedas muito grandes. Por exemplo, Punta Tombo se reduziu 23% nos últimos 20 anos. A León, que era a segunda maior do mundo, em 1995 tinha 100 mil pares. Fizemos outro censo há dois anos, e havia 48 mil pares, ou seja, caiu para mais da metade. Há 15 anos era a colônia mais próspera que poderíamos imaginar. Dá tristeza ver uma colônia assim… Por outro lado, nas colônias do Norte tudo é bárbaro; estão crescendo, os filhotes vão bem, nota-se que estão se alimentando muito perto das colônias. É muito difícil encontrar evidências de que as mudanças climáticas afetam os pinguins de forma direta. Isso é que é difícil para um cientista. O que aconteceu em 2008 são evidências que encontramos como uma ponta para entender que as mudanças climáticas estão afetando. Mas muitas vezes ficamos em dúvida se realmente é essa a causa.

Miradas- O senhor se refere ao caso dos pinguins de Magalhães que chegaram ao Nordeste do Brasil naquele ano?

Pablo Garcia Borboroglu- Nós publicamos há poucos meses um evento de mortalidade muito grande que houve em 2008 no Brasil, quando os pinguins chegaram até o Ceará. Trabalhamos com 12 instituições e todas reportaram número de mortos, o que contabilizamos como quase 3500 vistos na praia. O que acontece é que os pinguins migram normalmente. Estão aqui na Patagônia de setembro a abril. Em abril seguem para o Norte, vão para o sul do Brasil, centro do Brasil e Uruguai. No momento em que eles deveriam estar aí, a água, graças às mudanças climáticas, estava muita mais fria que o normal e não havia comida, por isso os pinguins seguiam viajando e chegaram ao Espírito Santo, Maceió e até Ceará. Inclusive, há registro de pescadores de disseram ter visto pinguins mortos, grupos boiando no mar; esses pinguins nunca chegaram à costa. E essa é outra conseqüência das mudanças climáticas: mudar a disponibilidade de comida no mar e fazer com que a migração seja um problema para os pinguins. Em geral, os pingüins não superavam a zona do Rio de Janeiro e São Paulo. A maioria fica na zona do sul do Brasil, no Uruguai… esse é o normal. Os jovens, que têm menos de um ano, seguem para mais longe, como não reproduzem, podem ir mais longe para comer. O adulto não vai para tão longe pois sabe que em setembro tem de voltar para reproduzir nas colônias. Em anos como em 2008, foram muito mais ao norte. Naquele ano, em particular, o que se viu foram mortos e os que estavam vivos estavam muito, muito frágeis. Mortos de fome, não encontravam comida e o mar os jogava para a costa. Em realidade, 3500 foi só o que encontramos mortos e o que o mar jogou à costa. Há muito mais.

Miradas- Uma das principais atrações turísticas da Patagônia são as excursões às chamadas pinguineiras, onde os turistas podem ver os pinguins em seu habitat natural. Esta atividade não poderia se configurar como uma ameaça?

Pablo Garcia Borboroglu- O turismo responsável, que está bem controlado, é uma ferramenta muito importante para a conservação dos pinguins. Por exemplo: em Punta Tombo, há 30 anos, havia uma empresa japonesa que queria explorar os pinguins para fabricar luvas com o couro. Naquele momento o povo reagiu e, a partir daí, nasceu um projeto de investigação que fez com que os pinguins passassem a ter mais importância… então se converteu em um recurso muito importante para a região através do turismo. Por esse lado, se temos um turismo que agrega valor, que gera divisas para que as pessoas cuidem dos pinguins, porque através deles elas subexistem, aí está bem. Mas há casos em que o turismo não é responsável, não está planejado, é um turismo massivo, em que o último de que lembram é do pinguim. Neste caso, sim, temos muito mais efeitos negativos. Os pinguins têm um grau de costume às pessoas. Se uma colônia tem visitas regulares, onde os pinguins sabem que as pessoas estão em determinado lugar, onde o pinguim vê que as pessoas não os machucam, isso pode existir. Mas precisamos lembrar que, cada vez que se abre uma colônia para o turismo, isso tem um custo para os pinguins. E a ameaça depende do quão controlada esteja, do quão manejada e planejada esteja. Não podem aparecer 5 mil pessoas à pinguineira… tudo depende de como se faz.

Miradas- Doutor Pablo, uma mensagem para quem nos lê…

Pablo Garcia Borboroglu- Uma das coisas boas dos pinguins é que são espécies carismáticas, que atraem muito a atenção das pessoas. Então, essas mensagens que fazem com que as pessoas se preocupem com os pinguins ajudam na conservação dos oceanos em geral. E se o trabalho consegue avanços de proteção aos pinguins, também beneficia muitas outras espécies que não são tão lindas ou simpáticas ou carismáticas como eles. Ou por aí também beneficiam espécies das quais não temos nenhum conhecimento. Alguma área de proteção marinha ou distintos tipos de proteção do oceano beneficiam os pinguins e também beneficiam os ambientes marinhos e todas as espécies pelas quais as pessoas não se sentem tão atraídas.

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