Maioria que é minoria

Em manifestação na Praça Murillo, centro do poder em La Paz, bolivianos pediam a saída do administrador de uma pequena região que estava no cargo há mais de 8 anos. Veja todas as imagens em: http://www.flickr.com/photos/galeria_miradas/

Mulheres, indígenas e campesinas: uma maioria tratada como minoria. Foi este o assunto da minha agradável conversa com a senhora Felipe Huanca Llupanqui, militante e secretária-geral da Confederação Nacional de Mulheres Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa”. Confira:

Miradas: De acordo com estatísticas do governo, as mulheres estão em maior número que os homens na Bolívia. E os indicadores econômicos e sociais apontam uma situação de risco para essa população; o desemprego é mais alto, a pobreza é maior entre as mulheres… De uma maneira geral, o que se pode dizer da situação das mulheres no país?

Felipe Huanca Llupanqui: Essa pobreza e essa desigualdade nasceram graças aos sistemas implantados de fora. Sistemas estes que criaram interesses de minorias, não interesses da maioria, pois somos 80% indígenas originários, como aymara, quechua e guaraní. Acima de tudo, o sistema colonialista e o neoliberalismo foram sistemas que plantaram medidas para eles, não para nós. Por isso, até hoje, estamos nesse patamar de desigualdade, de pobreza.

A Bolívia viveu 500 anos de governos que não incluiam os indígenas. Fomos governados por 500 anos de período colonial, republicano, neoliberal. Nós não éramos partícipes. Eles governavam como queriam. Eles fizeram as leis em seu favor, por isso houve empresários privados que tiraram proveitos. Além disso, quando chegou o neoliberalismo, o que fizeram? Capitalizaram as empresas estatais. Com isso, quem perdeu o trabalho? Nós.

E nós, as mulheres, fomos preteridas, discriminadas, não fomos levadas em conta no que se refere às questões políticas e econômicas.

Eles destroçaram nosso país e agora nos cabe arrumar pouco a pouco, solucionar juntos.

Miradas: A situação das mulheres piora quando analisamos a realidade do campo. A pobreza e a pobreza extrema são maiores na área rural e entre as mulheres. Como é viver nessa realidade?

Felipe Huanca Llupanqui: A pobreza, como dizia, vem de antes. Porque nós, aqui na Bolívia, temos nossos recursos naturais, não somos pobres. No entanto, lamentavelmente, não temos bons caminhos. O que produzimos, não podemos levar ao mercado.

Quem vive no campo? Os mais velhos: as avozinhas, os avôs. Aos jovens, graças à reforma agrária de 1953, cabe emigrar para as cidades. Então, no campo não há um desenvolvimento verdadeiro. Ainda não temos uma segurança agrícola, pois quando perdemos nossa produção, ninguém nos reconhece, perdemos nossos produtos. Aí é onde se cria mais pobreza, porque não podemos recuperar mais isso. Também estamos levantando essa questão: que haja um seguro agrícola aos pequenos produtores. Quando alguma desgraça ocorre, precisamos recuperar o que gastamos, o que investimos. Assim, defendo a necessidade de uma política equitativa para terminar com toda essa pobreza no campo.

Por isso pedimos ajuda aos governantes; precisamos nos organizar juntos para sair disso. É gradual. Por isso trabalhamos para sair dessa desigualdade, dessa pobreza no campo. Não será rápido. Olha o que fizeram durante 500 anos!?! Por isso todos precisamos nos ajudar, todos precisamos nos impulsionar para sair desta pobreza.

E temos lutado para termos reconhecida a maneira como vivemos no campo. Esta luta tem sido um processo assíduo, desde aqueles tempos, e é um processo que estamos vivendo, hoje em dia, num estado plurinacional.

Miradas: Na Bolívia, as mulheres sempre participam de assembléias, de greves, protestos… o que se pode dizer da presença das mulheres na política e na luta por seus direitos no país?

Felipe Huanca Llupanqui: O que vocês devem saber é que esta organização Bartolinas Sisa não é recente, não veio com este governo. Já temos 31 anos. Desde aqueles tempos temos lutado contra os governantes que trouxeram os tempos colonialistas, que entraram com esse sistema de dominar, explorar… Percebe? Nossos avós, nossos ancestrais lutaram contra isso. Logo, em tempos de liberalismo, surgiu esta organização. Bartolina Sisa foi uma mulher aymará como nós, que viveu no campo e disse: aqui, nós não podemos permitir que venham de fora para nos governar! Temos de nos auto-governar, cuidando de todos, não de alguns. Esta é a luta das mulheres.

Nas mobilizações veja quem sai primeiro: as mulheres. As mulheres estam na primeira fila para lutar. Por isso, sempre dizemos: nós, as mulheres, vamos seguir adiante frente a qualquer problema.

Nós, como mulheres desta organização, temos nossos princípios e valores; valores de reciprocidade, de ajuda mútua, sem interesses pessoais, só interesse coletivo. Esta é a nossa luta. Sempre estivemos lutando.

Miradas: E como é a participação política das mulheres na Bolívia atual, após a eleição do presidente Evo Morales? E qual foi a presença das mulheres no processo eleitoral boliviano, quando do Referendo pela Nova Constituição?

Felipe Huanca Llupanqui: Em 2005, houve uma luta forte para eleger um presidente indígena. Saimos nas ruas, brigando, lutando, fazendo ser reconhecido nosso direito como aymara, quechua e guaraní. Naquela eleição, elegemos nosso irmão presidente. Depois dessa conquista, nós, as mulheres, também buscamos participar nas estâncias políticas e desejamos expressar nossos problemas, nossas potencialidades, nossas necessidades, nossa discriminalização. Por isso o presidente, à pedido do povo, convocou imediatamente Assembléias Constituintes. As mulheres estavam [presentes] na constituição política do Estado, igualmente representadas. Somos maioria, então temos 50% de representação. Antes havia 30%, mas, agora, com esse governo, já são 50%. Nós nos expressamos, pedimos, por isso, esses 50% [de participação das mulheres] estão na Constituição.

Mas não queremos só fazer cumprir a lei. Nós mulheres somos maioria. Podemos participar da parte política com 80%, por que não 90%!?

Agora, as mulheres do campo, desta organização que representamos, já participamos da parte política.

As mulheres já estão entre os congressistas; mulheres quechua, aymara, guaraní já estão lá. Nos ministérios já temos 50% de participação. Nas assembléias departamentais também participam as bartolinas e mulheres de outras organizações do campo. Com este governo houve um avanço importante para as mulheres. É isso que precisamos seguir aprofundando. Que trabalhemos por nossa comunidade, que trabalhemos por nossa província, por nosso país, e por que não dizer, por nosso mundo, para que tenhamos equidade, igualdade, paz e justiça.

Agora a direita não está dormindo. Então, nós, como mulheres, seguiremos lutando. Já há líderes que seguirão impulsionando para que nós mulheres continuemos participando em diferentes instâncias políticas, que é a parte mais importante. Antigamente, nem sequer entrávamos no parlamento, onde trabalham os senadores… nem sequer pisávamos na Praça Murillo, onde está o governo. Nós sequer nos aproximávamos, pois ficava cercada de soldados, policiais. Quem iria se aproximar? Mas agora sim! Lutamos e conseguimos! Não quero dizer que está tudo resolvido. Não! É um processo. Temos de seguir passo a passo. Nós seguiremos lutando, como no passado, demonstramos a força das mulheres.

Miradas: A senhora pode falar um pouco mais sobre a participação das mulheres no processo eleitoral, durante o Referendo pela Nova Constituição?

Felipe Huanca Llupanqui: Por exemplo, no Referendo pela Nova Constituição, quando formaram as assembléias constituintes, quem foi o primeiro presidente? Foi uma mulher quechua a presidente. Pela primeira vez houve a participação das organizações sociais, elegemos representantes para escrever a Constituição Política do Estado. Pela primeira vez na história, o governo nos permitiu a participação das mulheres, das Bartolinas Sisa e de outras organizações.

Nós mulheres devemos seguir preparando a política econômica, social e cultural. Devemos estar fortemente preparadas para fortalecer um processo de mudança, como dizemos hoje na Bolívia. Uma mudança não chegou sem mais nem menos; nos custou a luta. Será muito difícil acabar com essa pobreza que eles implantaram, por isso somos mulheres organizadas. Por exemplo, já fizemos planos estratégicos para garantir segurança e soberania alimentar.

Creio que nesta Constituição está bem claro: está em nossas mão. Mas vamos trabalhar nisso e seguir levando propostas. Hoje em dia não é só sair nas ruas reclamando, mas oferencendo propostas, trabalhar desde as comunidades e fazer serem reconhecidas nossas potencialidades, nossas necessidades. E com isso se termina essa desigualdade que se vê hoje em dia.

Miradas: Houve uma mudança na Bolívia…

Felipe Huanca Llupanqui: Creio que, agora, conquistamos o “poder político”. Mas isso não é suficiente. Ainda falta trabalhar. As irmãs, os irmãos que participam de assembléias nacionais, departamentais, o irmão presidente, os senadores, os ministros, acredito que todos devem ter o compromisso de trabalhar para mudar nosso país. E não apenas nosso país, sozinhos não conseguiremos. Deve ser em nível de América Latina. Temos de nos ajudar. Por exemplo, no Equador, as mulheres deram sua força… temos de nos unir e intercambiar experiências. E creio que sozinhos não vamos fazer, mas unidos vamos mudar. Por exemplo, os países super desenvolvidos se preocupam unicamente em se enriquecer… tudo se pode fazer com isso. Porém, temos de cuidar da natureza. Nossa natureza é o mais importante. O ser humano, a natureza e seus recursos: essa é a complementariedade. Veja como nos administramos em nossa cultura: homens e mulheres se complementam. Esta complementariedade deve haver também em nossa relação com a natureza. Não podemos contaminar nossa natureza, nem mercantilizar o sangue da Pachamama, que é a água, o petróleo e o gás que temos. Os países querem mercantilizar sem pensar na coletividade. E esta é a nossa preocupação.

Queria dizer ao Brasil que nos está chamando; agradecer por esta entrevista. Quero agradecer-lhes aos irmãos e irmãs. Que sigamos trabalhando, intercambiando experiências e assim vamos levar um mundo justo com equidade, paz e justiça. Por isso queria te felicitar e agradecer pela entrevista.

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