Bahia

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Miradas: A Bahia é um dos estados mais importantes da Região Nordeste. E a presença da população negra é expressiva neste estado. O senhor pode dar um panorama da situação do negro na Bahia? Existe alguma diferença em relação ao que vemos no resto do Brasil?

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Gilberto Leal: A realidade do negro em qualquer lugar do Brasil não difere muito. O que vai diferir aí é o tamanho do problema no que tange à atingir um maior ou menor número de membros dessa população. No caso do estado da Bahia, a população negra é maioria no estado e maioria na capital também; no estado vai em torno de 75% e na capital, mais que 80%. Um dado importante que denota um patamar de qualidade de vida para a população negra é a questão do desemprego. Em Salvador, estudos indicam que 80% dos desempregados são negros e negras. Considerando que Salvador é uma cidade de maioria negra, esse dado de maioria entre os desempregados poderia se justificar pela natural presença da população negra, pela atual condição de maioria esmagadora na demografia bahiana e em particular de Salvador. Entretanto, quando você vai fazer a análise inversa: onde está a maioria dos empregados, não se constatam negros. E a maioria daqueles que detêm os melhores cargos, aqueles com melhores condições de vida, também não se expressa na mesma proporção que a presença do negro na demografia de Salvador e do estado da Bahia.

 

Miradas: No caso da Bahia, pode-se falar em desigualdade social e desigualdade racial? Existe uma diferença entre as duas?

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Gilberto Leal: Elas geralmente estão juntas, tanto social quanto racial. Muita gente tenta ainda explicar que a discriminação é social e não é racial. Você vai encontrar o racismo permeando todos os estratos da sociedade. Então, quando você vai subindo no estrato social, você vai encontrando cada vez menos negros. Entretanto, combinando a questão de raça e classe, o racismo não perdoa mesmo aqueles negros que estão em estratos sociais mais privilegiados.

 

Miradas: Eu visitei locais bem turísticos na Bahia e me chamou a atenção a falta de estrutura e as péssimas condições de vida das populações de baixa renda. Na minha opinião, o mais preocupante foi constatar essa realidade muito próxima da infância. Por ser a Bahia um estado com forte apelo turístico, queria que o senhor comentasse a realidade das crianças negras aí e a questão do turismo. Ele pode ser visto como um problema?

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Gilberto Leal: Quando você caminha, principalmente na madrugada, pelas ruas principais de Salvador, aquelas famílias que estão dormindo embaixo das marquises, dentro de caixas de papelão, são famílias compostas, geralmente, por mulheres de meia idade a idosas e crianças. Os homens, geralmente, tendem a ter, ainda que na miséria, uma possibilidade melhor de conseguir algum recurso para sobreviver. Mas a criança abandonada, aquela criança vítima de violência sexual, aqui em Salvador, a incidência é mais forte na criança negra.

O turismo poderá impactar a infância quando for um turismo interessado em buscar a exploração dessas crianças, seja oferecendo uma possível exploração sexual, seja você a explorando a partir da sua cultura. Ou seja, existe muita criança envolvida com as manifestações culturais, mas o retorno do turismo para essas crianças é muito pequeno. Se for um turismo bem estruturado, se for um turismo consciente, eu não diria que ele prejudicaria ou agravaria a situação das crianças negras.

 

Miradas: O que é a Bahia para o senhor?

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Gilberto Leal: A Bahia é um estado onde pulsa a cultura negra. É um estado onde a presença do negro é marcante. Mas, contraditoriamente, é essa mesma Bahia que não possibilita e que não oferece oportunidade para que a realidade social da população negra possa se inverter. É essa Bahia que não investe na capacitação da população negra no sentido em que ela possa melhorar sua qualidade de vida. É uma Bahia de grande presença cultural, mas de grande ausência da população negra participando do benefício social.

 

Miradas: Na sua opinião, como é possível melhorar a situação da população negra na Bahia?

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Gilberto Leal: A população negra precisa cada vez mais estar organizada para ter acesso ao conhecimento e ao domínio dos instrumentos que acessam as políticas públicas; para que ela possa estar ocupando estratos significativos de poder. Eu diria que o poder é bom, e, se ele é bom, os oprimidos têm de, necessariamente, gostar dele e empreender esforços no sentido de conseguir galgar postos nas estruturas de poder. Evidentemente, não cairá em seu colo o poder como uma dádiva dos céus; ele precisará conquistá-lo. Então, para romper com as barreiras que impedem a ascensão da população negra, a luta organizada e a busca por acesso ao conhecimento são extremamente necessários.

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