O mapa da mina

Fico imaginando se a maioria dos turistas que visitam o deserto de sal de Uyuni, o maior do mundo e um dos mais espetaculares destinos da América do Sul, saibam que pisam sobre uma mina de ouro. Não! Ouro, não.

A alguns metros abaixo da crosta de sal espalhada por 10.000 km² encontram-se minerais como o boro, magnésio, potássio e, o mais importante, o lítio. Mais da metade de todo o lítio do planeta está no Salar de Uyuni. A autarquia Comibol (Corporación Minera de Bolívia) trabalha com a hipótese de que haja 100 milhões de toneladas do mineral entranhadas neste mar de sal boliviano.

O lítio é um mineral não renovável e o mais leve do mundo. Nos últimos anos, tem atiçado a ambição de mercados em busca de fontes de energia alternativas. Usado em baterias de computadores, relógios, câmeras e celulares, é uma das principais promessas dos carros elétricos e da fusão nuclear. Armazenando mais energia em menos espaço, o lítio garante a fabricação de baterias menores e mais duráveis. Também é encontrado em medicamentos psiquiátricos, como antidepressivos, e em produtos à base de cerâmica, plástico e alumínio, permitindo a construção de peças mais resistentes e leves. O mineral é comercializado, principalmente, na forma de carbonato de lítio, e cada quilograma custa cerca de U$ 5.

Capítulo IV

Artículo 370- VI. El Estado, a través de sus entidades autárquicas, promoverá y desarrollará políticas de administración, proscpección, exploración, industrialización, comercialización, evaluación e información técnica, geológica y científica de los recursos naturales no renovables para el desarrollo minero.

Nueva Constitición de Bolivia

De acordo com a nova carta magna boliviana, a exploração das riquezas minerais do país deve ser regulada por entidades autárquicas e primar pela industrialização em vez da comercialização da matéria prima. Por isso, o governo do presidente Evo Morales Ayma, através da Comibol, investiu U$ 5,7 milhões na construção da planta piloto Llipi Loma. Inaugurado em maio de 2008 no departamento de Potosí, o projeto, previsto para entrar em operação ainda neste ano, dará início à exploração semi-indistrial do potássio e busca averiguar as possibilidades de uma produção em maior escala do lítio. A empreitada faz parte da Estrategia Nacional de Industrialización de Recursos Evaporíticos do governo boliviano, que pretende investir cerca de U$ 900 milhões na tentativa de alçar o país ao posto de terceiro principal fornecedor de lítio do mundo.

Numa primeira fase, o governo estima produzir mil toneladas de cloreto de potássio e 40 toneladas de carbonato de lítio mensalmente (o carbonato de lítio consiste no produto final, no lítio em sua forma comercial em nível mundial). Além disso, espera-se produzir sulfato de potássio, cloreto de magnésio e ácido bórico. A segunda fase, prevista para acontecer entre 2013/2014, contaria com uma produção, por ano, de 30 mil toneladas de carbonato de lítio e 700 mil de cloreto de potássio. A última etapa desse processo consistiria na industrialização de baterias e outros produtos derivados dos minerais explorados.

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Produção mundial

De acordo com informações da Comibol, atualmente o Chile é o principal produtor de lítio do mundo. Metade da produção mundial vem do país, sendo que 30% são frutos de extração nos salares do Deserto do Atacama pela Sociedad Química y Minera de Chile (SQM), uma empresa privada e que, segundo balanço, apenas nos 3 primeiros meses deste ano, lucrou U$ 42,3 milhões com a exploração do mineral e derivados.

Outra importante reserva de lítio se encontra no Salar del Hombre Muerto, na Argentina. E é explorada exclusivamente pela companhia estadounidense Farmer Machinery Corporation (FMC), que abocanha 20% do mercado internacional.

Nesta mesma proporção está a Austrália no cenário mundial. Despontando como uma das principais lideranças na produção de lítio extraído de rochas, a Talison Minerals, em 2009, se subdividiu em duas companhias, ficando à Talison Lithium a responsabilidade pelas operações no país. A capacidade de exploração do mineral pela Talison Lithium chegou a 260 mil toneladas naquele ano.

Oferecendo uma porcentagem menor de lítio para o mercado mundial estão os Estados Unidos e a China.

Estratégia Nacional

A Bolívia possui 17 mil km² de salares. Deste total, 10 mil km² pertencem ao Salar de Uyuni e 3.300 km² ao Salar de Coipasa. Ambos fazem parte da estratégia nacional do governo boliviano que visa industrializar a produção dos recursos minerais.

Segundo a Comibol, o potencial econômico do Salar de Uyuni já é conhecido há 40 anos. Tanto que o patromônio foi declarado Reserva Fiscal do Estado. Na década de 90, a Bolívia firmou contrato de exploração do lítio com uma transnacional norte-americana, a Lithium Corporation of America, que buscava a extração da matéria-prima e gozava de privilégios que não se revertiam em benefício para os bolivianos. Frente a isso e à vários protestos das comunidades, o governo decidiu rescindir o acordo.

Hoje, prestes a entrar em operação, a Planta Piloto Llipi Loma desponta como parte inicial do projeto de industrialização dos recursos minerais bolivianos com investimentos integralmente estatais. As obras ficaram à cargo da Gerência Nacional de Recursos Evaporíticos (GNRE) da Comibol. Sobre este projeto e sobre a estratégia do governo boliviano, conversei, via e-mail, com o Gerente Geral da GNRE, engenheiro Luis Alberto Echazú Alvarado. Leia a íntegra da entrevista.

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2 Comentários

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