Bolívia

NO LUGAR CERTO, NA HORA CERTA

Naquela noite, a percussão dos negros de Tacaña atraiu a atenção para a Praça Murillo, coração de La Paz e centro do Poder Executivo. Os tambores da pequena e única população negra da Bolívia eram uma das várias atrações na grande festa de encerramento da campanha pelo “SIM”. Dois dias depois, o país iria às urnas para decidir pela aprovação da nova Carta Magna boliviana.

A Nova Constituição do Estado foi uma das principais bandeiras do governo de Evo Morales Aima (o primeiro indígena a ocupar a presidência da Bolívia); e o estopim para uma disputa que rachou o país e gerou uma série de graves conflitos entre a minoria rica e branca, que reivindicava a manutenção da ordem vigente e a autonomia de seus departamentos, e a maioria pobre e indígena, que defendia a atualização das leis, a ampliação de seus direitos e seu reconhecimento perante a Nação.

A questão racial mesclada aos interesses econômicos reavivou a memória do período colonial e desencadeou violentas ofensivas de ódio e racismo que alcançaram seu ápice no dia 24 de maio de 2008, quando um grupo de indígenas foi agredido e humilhado em praça pública na capital Sucre.

E em janeiro de 2009, enquanto eu viajava pela Bolívia, encontrei um país ressacado por suscessivos conflitos, mas rumo a uma mudança sem precedentes em sua história. Descobri, também, as incríveis belezas naturais que permeiam seu variado território, e algumas que se convertem em bons investimentos para os cofres públicos, como o Salar de Uyuni e o Lago Titicaca; descobri como os interesses econômicos travestem o preconceito e atropelam o respeito às diferenças culturais e às tradições. Por exemplo: a política anti-drogas encabeçada pelos Estados Unidos que desconsidera e deturpa o milenar cultivo e uso da folha de coca em virtude de sua apropriação para produção e consumo ilegais. Na Bolívia descobri o respeito e a devoção à Pachamama, a Mãe-Terra, tão arraigados nas crenças indígenas; descobri um povo inquieto, contestador e engajado na luta por justiça social; descobri uma infraestrutura precária, seja para quem vive em meio à falta de saneamento, à falta de moradia e condições de vida dignas, seja para quem se aventura por suas estradas perigosas e mal pavimentadas, dependendo de transportes defasados e serviço pitoresco; descobri a história de um povo que ainda ressente o fim de um passado glorioso nas minas de Prata de Potosí; que ainda se ressente dos abuso de poder e das decisões que trouxeram prejuízos como a perda da única saída boliviana para o mar; descobri o impacto da história de outro povo que se cruza no país, uma vez que foi na Bolívia, perto da provinciana e tranquila Samaipata, que morreu o revolucionário argentino/cubano Che Guevara…

Naquela noite do dia 23, às vésperas do Referendo da Nova Constituição do Estado, alegres e confiantes na vitória, apoiadores do governo se revesavam entre apresentações culturais de grupos típicos e discursos inflamados pela aprovação da Carta Magna. Para minha surpresa e deleite, o próprio presidente Morales participou das comemorações na Praça Murillo, conclamando todos para votar pelo “SIM”.

Lembrei-me da primeira vez em que estive na Bolívia, em maio de 2006… Logo após ser eleito, Morales, indígena da etnia aymara, decretara a nacionalização do gás boliviano, medida que causou certo descontentamento no governo brasileiro frente aos investimentos da gigante Petrobrás.

Viajar pela bolívia em momentos de efervescência política foi uma mera coincidência e um golpe de sorte para quem não planeja a viagem com antecedência.

Afinal, sorte é conhecer a Bolívia, independente da época. É tudo uma questão de escolha. E bom senso.

 

Para saber mais:

Nome oficial: Estado Plurinacional de Bolivia

Superfície: 1.098.581 km²

Fronteiras: Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e Peru

Capital: Sucre é a Capital Constitucional. Já La Paz é a sede do Governo

Províncias: 112 provincias e 327 municipios

Departamentos: 9

Densidade demográfica: 9.49 hab/km² (ano 2010)

População: 10.426.154 (ano 2010)

  • População urbana: 6.922.107
  • População rural: 3.504.047
  • Mulheres: 5.224.180
  • Homens: 5.201.974

Mortalidade: 7.29 (a cada mil habitantes)

Mortalidade infantil: 41.65 (a cada mil nascidos vivos)

Pobreza: Em todo o país, 5.919.766 de pessoas (ou 60,10% da população) são considerados pobres, sendo que 3.714.076 (37,70%) vivem em condições de pobreza extrema. O número de pobres na área urbana é de 3.266.991 (ou 50,90%), enquanto que no campo a pobreza atinge 2.652.775 (77,29% ). Já a pobreza extrema é maior na zona rural, afetando 2.194.623 (ou 63,94% ). Nas cidades, 1.519.453 (23,67%) vivem em condições de extrema pobreza (ano 2007)

Necessidades Básicas Insatisfeitas (NBI): 58,6 (censo 2001)

Saúde: 3.066 habitantes por estabelecimento de saúde. 684 habitantes por cama hospitalar (ano 2009)

Expectativa de vida: 66,34 (ano 2010)

Mercado de Trabalho (ano 2007):

  • População Economicamente Ativa (PEA): 64,78%
  • Ocupados: 94,82%
  • Desocupados: 5,18%

IDH: 0.643. 95º lugar no ranking mundial. Considerado desenvolvimento humano médio (PNUD- 2010)

PIB: 32.585.680 bilhões de bolivianos (ano 2010)

Educação: 13,28% de analfabetismo entre população maior de 15 anos (censo 2001)

Língua: Com uma população em sua maioria composta por indígenas, a Nova Constituição da República reconhece o espanhol e mais 36 idiomas indígenas como língua oficial do país. São eles: aymara, araona, baure, bésiro, canichana, cavineño, cayubaba, chácobo, chimán, ese ejja, guaraní, guarasu’we, guarayu, itonama, leco, machajuyai-kallawaya, machineri, maropa, mojeño-trinitario, mojeño-ignaciano, moré, mosetén, movima, pacawara, puquina, quechua, sirionó, tacana, tapiete, toromona, uru-chipaya, weenhayek, yaminawa, yuki, yuracaré e zamuco.

Moeda: Boliviano (Bs)

Independência: 6 de agosto de 1825

Economia: Apesar de ser considerado um dos países mais pobres das Américas, a Bolívia mostra-se riquíssima em recursos naturais que se convertem em bons investimentos. O Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do planeta, concentra mais da metade de todo o lítio encontrado no mundo. O lítio é o mineral mais leve e atiça o interesse dos mercados que buscam fontes de energia alternativas (saiba mais). Mas não é de hoje que a mineração tem papel fundamental na economia do país. Do alto dos seus 4.100 metros de altitude, Potosí é um patrimônio histórico tombado pela Unesco. Mas no século XVI, graças às minas de prata do Cerro Rico, a cidade foi considerada uma das mais ricas e importantes do mundo. Riqueza esta que escoava inteira e rapidamente para a Europa. Tanto que, conta a lenda, seria possível construir uma ponte de prata ligando Potosí ao velho continente; e uma de ossos no sentido inverso, demonstrando o saldo de tamanha exploração.

O espectro da exuberância em meio à miséria ainda paira sobre as minas de Potosí, onde bolivianos se submetem à precárias e exaustivas condições de trabalho, retirando do solo material de pequeno valor; tudo o que restou daquele passado glorioso.

Menos trágico, melhor estruturado e, ainda, mais importante para os cofres públicos está a produção de petróleo e gás natural. No governo de Evo Morales, os chamados “hidrocarburos” ganharam um ministério (Ministerio de Hidrocarburos y Energía), artigos na Nova Constituição do Estado (Artículo 359) e toda uma política de nacionalização que visa garantir a soberania energética do país.

Geografia: Entrecortando o país, a Cordilheira dos Andes se ramifica entre as Cordilheiras Ocidental e Oriental ou Real, garantindo à Bolívia uma região com as montanhas mais altas das Américas, além do mais alto lago navegável do mundo, o famoso Titicaca. A região Andina e seus 307 mil m² respondem por 28% de todo o território boliviano e se encontra a mais de 3 mil metros acima do nível do mar. Porém, grande parte do país (59%) é constituído por terras baixas, cobertas por extensas florestas e com altas temperaturas; são os llanos. Já a outra região geográfica da Bolívia, compreendendo 13% de seu território, é a subandina, uma área de transição entre o altiplano andino e os llanos. Aqui se pode conhecer os Yungas, cujo clima ameno e altitude mediana garantem uma zona agrícola fértil.

Ponto mais alto: Nevado Sajama. Localizada na Cordilheira Ocidental, a montanha alcança 6.542m

Principais rios: Mamoré, Madre de Dios, Beni e Paraguai

Salares: Salar de Uyuni, o maior do mundo, com 10.582 km², e o Coipasa, 2.218 km²

Principais Lagos: Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo; dos seus 8.030 km² de superfície, 3.690 km² correspondem à Bolívia. Poopó, com 1.337 km²

Oceanos: A Bolívia não possui saída para o mar, tendo-a perdido para o Chile durante a Guerra do Pacífico, em 1879. O episódio desencadeou animosidades contra os vizinhos que duram até hoje.

 

Fonte: Instituto Nacional de Estadísticas- INE