Colômbia

As horas adentravam pela madrugada assim como o ônibus adentrava pela mata. A estrada era de asfalto, ao contrário de muitas outras pelas quais eu havia passado enquanto viajava pela Colômbia. A rota era aparentemente tranquila; ligava Medellín à portuária Turbo. Soube depois que era área controlada por grupos paramilitares.

Do nada e no meio do nada, o ônibus parou. Sobressaltada, olhei pela janela e me pus a antever a razão de tudo aquilo. Enquanto previa a invasão iminente do ônibus por grupos armados, observava o motorista escarafunchando o porta-malas à luz de uma lantera. Vi-o atravessar o corredor em minha direção até o fundo do veículo, me ignorar quando perguntei o que passava e desligar o motor. Já idealizando o pior cenário, me abismava com a passividade dos meus colegas de viagem, que dormiam profundamente. Contrariada, insisti em reproduzir a postura geral.

Acordei com o clamor de um dos passageiros, ordenando que o motorista ligasse o ar condicionado para amenizar o calor. Embriagada de sono, percebi que já era dia. Ao descer, me deparei com uma fila de carros, ônibus e caminhões que se perdia no horizonte e, logo à frente, o causador de tudo aquilo: um deslizamento de terra (coisa bastante frequente nesse país tropical). Por alguns trocados, adultos e crianças indígenas, moradores da região, escavavam a lama com pás e cortavam com facões alguns galhos das árvores que rolaram ladeira abaixo. Assistindo àquilo passivamente estávamos os vários viajantes e alguns jovens militares do onipresente Exército colombiano. A viagem prosseguiu passadas dez horas desde a interrupção, depois que retroescavadeiras veiram ao nosso resgate.

______________________________________________________________________________________________________________

Talvez houvesse alguma ingenuidade ou displicência em minha voz que fazia com que relevassem uma potencial ofensa. Há 50 anos, a Colômbia vive uma guerra civil, mas seus habitantes, como se imersos numa distopia Orwelliana, dominam o duplipensamento; sabem que existe um conflito no país, mas acreditam piamente que essa ameaça não ronda as cercanias. Por isso, sempre que perguntava sobre a presença de algum grupo armado numa determinada região, recebia de meu interlocutor um desconversado “aquí no hay”. Fim de papo.

Foram 50 dias viajando pela Colômbia durante a era de Álvaro Uribe, cujo governo se regozijava com a fama de linha dura contra as Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Assim como no romance 1984 de George Orwell, ao ligar a TV na principal emissora do país, a Caracol, ou ler um jornal de grande circulação nas bancas, tudo o que se via eram os louros do governo de Uribe no combate às Farc e sua vitória na desmobilização de grupos paramilitares. De fato, a militarização do país era massiva e se fazia presente especialmente nos locais mais remotos.

Como aqui no Brasil, os principais meios de comunicação colombianos conclamavam as Farc inimigo público número um da Colômbia, enquanto veículos mais idôneos, a mídia independente e organizações nacionais e internacionas denunciam com frequencia gravíssimas violações de direitos humanos também por parte do Exército e milicianos de extrema-direita, os paramilitares, especialmente contra minorias indígenas, afro-descendentes e defensores de direitos humanos.

Reeleito e bem cotado pela população, Uribe (acusado de manter estreitos laços com paramilitares), com a aquiescência dos Estados Unidos, encampou uma batalha contra as Farc dentro de sua “política de seguridad democrática”; que incluía, também, uma pretensa desmobilização de grupos paramilitares. Sem mencionar o abominável escândalo dos falsos positivos; chacinas perpretadas por membros do Exército, que assassinavam jovens e os apresentava como guerrilheiros mortos em combate; tudo na tentativa de apresentar provas da eficácia da política governamental.

Durante minha jornada pela Colômbia, notei uma porção de placas de USAID, a ajuda financeira estadounidenses, jazendo pregadas em locais onde infraestrutura básica, como saneamento e luz, no entanto, não chegavam.

De acordo com a organização Human Rights Watch, os Estados Unidos figuram como a principal ajuda financeira internacional à Colômbia. Em 2012, foram destinados cerca de 482 milhões de dólares ao país caribenho, 60% deste total sendo destinados aos militares e à polícia.

Segundo último relatório da Consultoría para los Derechos Humanos y el Desplazamiento (CODHES) sobre as migrações forçadas, o ano de 2011 apresentou 260 mil casos. No total, diz a ONG, de 1985 até 2011, 5.4 milhões de colombianos foram expulsos de suas terras por conta do conflito armado no país.

_________________________________________________________________________________________________

A questão colombiana sempre despertou em mim interesse e repulsa. Não obstante a enormidade de mazelas que afligem nosso país e nossos vizinhos, a realidade da Colômbia me impacta de forma tão brutal que, passados 4 anos desde minha visita ao país, apenas hoje consigo driblar um bloqueio e ensaio traduzir em palavras um pouco do que que vi e senti.

Porém, sinto-me fracassada. Tudo o que digo me parece raso; e tudo o que mostro me parece insuficiente. Corro o risco de ser leviana.

Poderia discorrer aqui sobre as belezas da terra de Fernando Botero e Gabriel García Márquez; das riquezas desse território multifacetado e de sua enorme biodiversidade. Poderia enfatizar a importância da produção de café, no lugar do costumeiro narcotráfico. Poderia trazer os números que trago nas apresentações de outros países; porém, mesmo índices aparentemente inofensivos são difíceis de se conseguir num país cuja falta de transparência é arma de controle governamental.

Mas, para mim, é inviável falar de Colômbia sem mencionar graves violações de diretos humanos, a impunidade, a violência e truculência de um regime autoritário. Falar de Colômbia é falar de guerra, injustiça, miséria, omissão. No entanto, as imagens que trago aqui não exprimem esse sentimento. Afinal, a barbárie é uma realidade latente.
Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay…